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Trabalho por aplicativo: o IBGE mudou a régua em 2025

Trabalho por aplicativo chegou a 1,96 milhão de pessoas em 2025, mas o IBGE ampliou o questionário. Entenda por que esse total não cabe na série antiga.

Entregador de capacete branco pilotando uma moto vermelha com baú cinza à noite, com as luzes da rua borradas pelo movimento
Foto de Rowan Freeman (Unsplash).

Em 30 segundos

O IBGE divulgou em 4 de setembro que 1,96 milhão de pessoas trabalharam por aplicativo no Brasil em 2025 — 1,9% de todo mundo que estava ocupado no país. O detalhe que quase ninguém colocou na manchete: em 2025 o instituto ampliou o questionário e passou a contar também quem usa aplicativo como renda complementar. O total novo não pode ser comparado com o dos anos anteriores.

Eu abri essa divulgação atrás de uma coisa e saí com outra. Fui ver o tamanho do trabalho por aplicativo no Brasil, achei o número, e aí topei com uma nota metodológica que mudou completamente o que eu ia escrever.

Porque a pergunta que parecia simples — "quantas pessoas trabalham por app hoje?" — só tem resposta depois de uma segunda pergunta bem chata: o que exatamente conta como trabalhar por app? Em 2025, a resposta do IBGE para essa segunda pergunta mudou. E quando a definição muda, a série de anos anteriores para de encaixar.

Trabalho por aplicativo: o que o IBGE mediu em 2025

O levantamento sai da Pnad Contínua, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, que é o censo em miniatura que o IBGE roda o ano inteiro batendo em domicílios de todo o país para saber quem trabalha, em quê e ganhando quanto. Desde 2022 ela tem um módulo específico sobre trabalho por plataformas digitais, divulgado em edições espaçadas.

Os retratos principais, segundo o material divulgado pela Agência Brasil: 1,96 milhão de pessoas no total, sendo 1,8 milhão com o aplicativo como ocupação principal. O transporte de passageiros concentra 1,2 milhão dessas pessoas, ou 58,9% do grupo. E 86,8% se declararam trabalhadores por conta própria.

O perfil também é bastante concentrado: 84,4% são homens e 47% têm entre 25 e 39 anos. Não é um recorte da economia inteira, é um pedaço bem específico dela — e mesmo assim já responde por quase 2% de todos os ocupados do país.

Confesso que essa proporção me pegou. Dois por cento parece pouco quando você lê rápido, mas é da ordem de grandeza de setores que a gente trata como grandes empregadores. Só que esse aqui praticamente não existia como categoria estatística até poucos anos atrás.

A régua mudou no meio da série

Gráfico de barras com quatro medições: 1,3 milhão em 2022, 1,7 milhão em 2024 e 1,8 milhão em 2025 como ocupação principal, e uma barra tracejada com o total de 1,96 milhão em 2025 pelo questionário ampliado
Gráfico do Nav Analytics com os dados do módulo de trabalho por plataformas digitais da Pnad Contínua.

Aqui está a parte que me fez ler três vezes. As edições anteriores do módulo contavam só quem tinha o aplicativo como ocupação principal. Em 2025, o IBGE ampliou o questionário para captar também o trabalho secundário — quem faz corrida ou entrega para complementar a renda de outro trabalho — e as plataformas de comércio eletrônico, além de novos quesitos, como o motivo que levou a pessoa a trabalhar por app.

Isso significa que os quase 2 milhões de 2025 e o 1,7 milhão de 2024 não são a mesma medida. Um deles conta um grupo maior de pessoas por construção, e não porque mais gente entrou no trabalho por aplicativo.

A série que continua comparável é a da ocupação principal: 1,3 milhão em 2022, 1,7 milhão em 2024 e 1,8 milhão em 2025. Nessa régua, o crescimento foi de 9,1% em um ano e 36,8% em três anos — expressivo, mas bem menos espetacular do que a leitura ingênua de comparar 1,96 milhão com 1,7 milhão sugeriria.

Repare no que aconteceu: o número certo, a fonte certa, a pesquisa certa, e ainda assim dá para chegar numa conclusão errada, só por comparar duas medidas que têm nomes parecidos e definições diferentes. É um primo próximo do problema que eu encontrei quando escrevi sobre a produção industrial de julho, um dado com cinco leituras: lá, a base de comparação mudava a resposta; aqui, é a própria definição do que está sendo contado que mudou.

E tem uma coisa que eu achei honesta da parte do instituto: a mudança está declarada. Ela só é fácil de perder de vista, porque quem lê a manchete pega o número grande e segue a vida.

O número que eu não esperava: a hora vale menos

Gráfico comparando trabalhadores por aplicativo e demais trabalhadores em quatro medidas: R$ 16,20 contra R$ 18,40 por hora, 44,7 contra 39,3 horas semanais, 72,1% contra 42,7% de informalidade e 34% contra 63% de contribuição previdenciária
Gráfico do Nav Analytics com os indicadores de rendimento, jornada e formalização da Pnad Contínua de 2025.

O rendimento médio mensal de quem trabalha por aplicativo ficou em R$ 3.147 — praticamente idêntico ao dos demais trabalhadores. Se a análise parasse aqui, a conclusão seria "dá na mesma".

Só que a jornada não é a mesma. São 44,7 horas por semana contra 39,3 horas dos demais trabalhadores do setor privado. Quando o IBGE divide o rendimento pelas horas efetivamente trabalhadas, o valor da hora cai para R$ 16,20, contra R$ 18,40 — cerca de 12% a menos por hora trabalhada.

É o mesmo salário no fim do mês e um preço diferente por hora de vida. Achei essa a informação mais forte da divulgação, e ela só aparece porque alguém teve o cuidado de olhar o rendimento e a jornada juntos, em vez de olhar só o total mensal.

O quadro de proteção acompanha: a taxa de informalidade nesse grupo é de 72,1%, contra 42,7% entre os demais trabalhadores, e só 34% declararam contribuir para a Previdência, contra 63%. É uma diferença grande o bastante para que qualquer política pública que use esses números precise saber exatamente de qual recorte está falando.

Uma coisa que eu não consegui fechar: as reportagens que li divergem sobre a fatia dos entregadores dentro do grupo. Vi percentuais diferentes em veículos diferentes, sem que desse para saber qual recorte cada um usou. Preferi não colocar número nenhum aqui a colocar um que eu não sei conferir — e fica o registro de que essa parte ainda está confusa para mim.

O que muda para quem decide com número

Agora a parte que vale para quem toca uma empresa e nunca vai abrir uma tabela do IBGE. O que aconteceu com a Pnad acontece toda semana em painel de empresa: alguém melhora a forma de medir, e a série vira uma mistura de duas réguas sem que ninguém avise.

É o comercial que passa a contar como "venda" o pedido faturado em vez do pedido fechado. É o financeiro que decide incluir o frete no ticket médio. É o suporte que muda o critério de "chamado resolvido". Nenhuma dessas mudanças é errada — em geral são melhorias. O problema é a mudança entrar em silêncio e o gráfico continuar mostrando doze meses seguidos como se fossem doze meses iguais. Aí a reunião discute um crescimento que é só definição nova.

Em empresa pequena e média isso costuma ser pior, e não por falta de cuidado: quando o número é montado na mão, juntando um sistema com uma planilha e um relatório de outra área, a definição mora na cabeça de quem monta. Se essa pessoa muda de ideia, sai de férias ou sai da empresa, a régua muda junto e não fica registro em lugar nenhum. Deixar cada indicador com uma definição escrita e um lugar só de onde ele sai é boa parte do trabalho que a gente tenta tirar das costas do gestor no Nav Analytics.

O hábito que eu vou levar dessa divulgação é pequeno e chato: anotar a data em que a definição de um indicador mudou e deixar essa marca visível no gráfico, do jeito que o IBGE deixou na nota metodológica. Custa um minuto e evita a discussão de uma hora — a mesma lógica de olhar o percentil em vez da média que eu comentei ao escrever sobre o que mudou nos Core Web Vitals em 2026.

Quase 2 milhões de pessoas trabalhando por aplicativo é uma informação e tanto. Mas a informação que eu vou lembrar daqui é outra: quando o número dá um salto, a primeira pergunta não é "o que cresceu?", é "a régua é a mesma?".

Fontes

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