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Cesta básica de agosto: queda em 25 das 27 capitais

Cesta básica de agosto caiu em 25 das 27 capitais, mas subiu no ano em quase todas. Veja por que a média nacional esconde o preço da sua cidade.

Banca de feira livre em São Paulo com bandejas de morango, cereja, uva, tomate e caixas de manga expostas sobre a mesa coberta de plástico branco
Foto de Kodi Kodama (Pexels).

Em 30 segundos

O Dieese e a Conab divulgaram na quinta-feira, 10 de setembro, a pesquisa da cesta básica de agosto. O custo caiu em 25 das 27 capitais pesquisadas e subiu só em Maceió, 1,43%, e São Luís, 0,78%. Na comparação com agosto do ano passado, porém, o movimento se inverte: a cesta ficou mais cara em 25 capitais. E o preço do mesmo conjunto de alimentos vai de R$ 570,98 em Aracaju a R$ 900,59 em São Paulo.

Banca de feira livre em São Paulo com bandejas de morango, cereja, uva, tomate e caixas de manga expostas sobre a mesa coberta de plástico branco
Foto de Kodi Kodama (Pexels).

Eu cliquei nessa notícia esperando uma manchete só: "cesta básica cai". É a manchete que dá para escrever com o primeiro parágrafo do release, e ela está correta. O problema é que ela some assim que você olha a tabela que vem junto.

Porque a pesquisa não produz um número. Produz vinte e sete. E, no mesmo mês, eles apontam para lados diferentes.

Cesta básica de agosto: o que a pesquisa mediu

A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos é feita todo mês pelo Dieese em parceria com a Conab, a companhia federal de abastecimento. Ela acompanha o preço de um conjunto fixo de alimentos nas 27 capitais — os mesmos itens, mês a mês, cidade por cidade.

Em agosto, esse custo recuou em 25 capitais. As quedas mais fortes ficaram no Norte: Rio Branco, 4,68%, Manaus, 4,55%, e Boa Vista, 4,47%. Aracaju caiu 3,89% e Cuiabá, 3,37%.

Subiram duas: Maceió, 1,43%, e São Luís, 0,78%. Batata, café, tomate e feijão empurraram o índice para baixo; pão francês, óleo de soja, leite integral e arroz agulhinha puxaram para cima, segundo a reportagem da Agência Brasil sobre o levantamento.

Gráfico de barras com a variação da cesta básica em agosto: quedas de 4,68% em Rio Branco, 4,55% em Manaus, 4,47% em Boa Vista, 3,89% em Aracaju e 3,37% em Cuiabá, e altas de 0,78% em São Luís e 1,43% em Maceió
Gráfico do Nav Analytics com os dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do Dieese e da Conab.

Repare no tamanho do intervalo. Entre a maior queda e a maior alta do mês há pouco mais de seis pontos percentuais de distância. Mesmo período, mesma lista de compras, mesma metodologia.

Eu fiquei um tempo olhando para Rio Branco e Maceió lado a lado. Se você vende alimento e acompanha só o resultado nacional, agosto foi um mês de alívio. Se a sua loja fica em Maceió, agosto foi um mês de aumento. As duas frases saem da mesma pesquisa.

R$ 900,59 e R$ 570,98: o número que eu li duas vezes

A variação percentual me surpreendeu menos do que o valor absoluto. São Paulo teve a cesta mais cara do país em agosto, a R$ 900,59. Aracaju teve a mais barata, a R$ 570,98.

São R$ 329,61 de diferença pelo mesmo conjunto de alimentos, no mesmo mês. Confesso que não esperava uma distância tão grande dentro de um país só.

Gráfico de barras com o custo da cesta básica em agosto: São Paulo R$ 900,59, Cuiabá R$ 851,57, Rio de Janeiro R$ 851,19 e Aracaju R$ 570,98
Gráfico do Nav Analytics com os dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do Dieese e da Conab.

Cuiabá, a R$ 851,57, e Rio de Janeiro, a R$ 851,19, ficaram logo atrás de São Paulo — praticamente empatadas, com trinta e oito centavos separando uma da outra.

O Dieese usa esse dado para calcular outras duas coisas. A primeira é o tempo de trabalho necessário para comprar a cesta: 98 horas e 37 minutos em agosto, contra 100 horas e 24 minutos em julho. A segunda é quanto isso compromete da renda líquida de quem ganha um salário mínimo — 48,46%, quase metade.

Tem ainda a conta mais conhecida da pesquisa, a do salário mínimo necessário. Pela metodologia do instituto, que parte do que a Constituição lista como despesas de uma família de quatro pessoas, ele seria de R$ 7.565,86 em agosto, ou 4,67 vezes o mínimo em vigor, de R$ 1.621,00. É uma conta hipotética, e vale ler como o que ela é: um cálculo de referência, não um valor que alguém esteja propondo pagar.

Caiu no mês e subiu no ano — as duas coisas ao mesmo tempo

Aqui está a parte que eu acho que se perde na manchete. Quando a comparação muda de julho para agosto de 2025, o sinal vira: a cesta ficou mais cara em 25 capitais no intervalo de doze meses. Só Brasília, com queda de 0,64%, e Palmas, com 0,27%, fecharam o período abaixo do ano anterior.

E as altas anuais não são pequenas: Goiânia acumulou 7,51%, Cuiabá, 6,42%, e Vitória, 6,26%, como mostrou a cobertura do Poder360 sobre a pesquisa.

Faz sentido? Um mês pode cair por causa de safra de batata e tomate, que são itens voláteis, enquanto a linha de doze meses carrega o que subiu e ficou. Nenhuma das duas leituras está errada; elas respondem a perguntas diferentes.

É o mesmo incômodo que eu já tinha encontrado ao escrever sobre a produção industrial de julho, o dado com cinco leituras. Só que lá a escolha era de período. Aqui ela é de período e de lugar — e a segunda quase nunca aparece na notícia.

O que ficou sem resposta para mim: a pesquisa não explica em qual tipo de estabelecimento cada preço é coletado em cada cidade, e isso muda bastante o resultado de quem compara feira com atacarejo. Fui atrás e não achei essa abertura nas matérias que li.

O que muda para quem decide com número

Pense num restaurante pequeno, ou numa padaria, ou num mercadinho de bairro. Alimento é a maior linha de custo do negócio, e ela muda toda semana. A pesquisa do Dieese é um bom termômetro do país — só que ninguém compra no país. Compra num fornecedor, numa cidade, numa semana.

O que essa notícia mostra, no fundo, é uma regra que vale para qualquer indicador: média sem recorte não serve para decidir. O dono de um mercadinho em Maceió que tivesse lido só a manchete de agosto teria concluído exatamente o contrário do que aconteceu com o custo dele.

E o recorte que interessa raramente é o da pesquisa. É o seu: quanto o arroz subiu neste fornecedor, quanto o óleo pesou na compra deste mês, qual loja está com a margem menor. São números que a empresa já tem — espalhados entre notas fiscais, o sistema de compras, o extrato do banco e a planilha que alguém atualiza quando sobra tempo. Reunir essas fontes num indicador que dá para acompanhar toda semana é o problema em que a gente trabalha no Nav Analytics.

A pergunta que eu levaria daqui não é se a cesta básica caiu. É se você consegue responder, sem abrir três sistemas, quanto o seu custo de compra variou no mês passado — e em qual item. Foi a mesma dúvida que apareceu quando escrevi sobre as empresas que não medem o retorno do que investem em IA: o número existe, mas não chega pronto a lugar nenhum.

Fontes

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