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ROI de IA: 55% das empresas não medem o retorno

ROI de IA é ponto cego em 55,1% das grandes empresas brasileiras, contra 30,6% em 2025. Veja o que o estudo mostra e por que medir ficou mais difícil.

Vista de cima de uma mesa branca com uma pessoa segurando uma calculadora sobre um caderno aberto e conferindo um relatório impresso com gráfico de linha — o gesto de conferir contas que falta ao ROI de IA na maioria das empresas
Foto de Hanna Pad (Pexels).

Em 30 segundos

Saiu na terça-feira, 8 de setembro, a terceira edição do estudo Panorama da IA no Brasil, feito pela consultoria Zappts. O dado que virou manchete: 55,1% das grandes empresas ouvidas não têm mapeamento estruturado de ROI de IA — ou seja, não medem o retorno do que investem em inteligência artificial. Em 2025, eram 30,6%. Só 19,8% dizem medir o retorno com clareza e de forma recorrente. Foram 167 executivos de grandes empresas, ouvidos entre abril e julho de 2026.

Vista de cima de uma mesa branca com uma pessoa segurando uma calculadora sobre um caderno aberto e conferindo um relatório impresso com gráfico de linha
Foto de Hanna Pad (Pexels).

Eu abri essa notícia esperando mais um estudo dizendo que a adoção de IA cresceu. Cresceu mesmo. Só que o número que me segurou na tela foi o contrário disso: o tanto de empresa que está usando e não sabe dizer se valeu a pena.

Sigla explicada logo de cara, porque ela aparece o post inteiro: ROI é retorno sobre investimento. É a conta de quanto voltou para cada real gasto. Simples de enunciar, e aparentemente bem menos simples de fazer.

O que me deixou curioso não foi a fatia grande. Foi o movimento: essa fatia estava em 30,6% no ano passado. Como é que a capacidade de medir piora enquanto a tecnologia avança?

ROI de IA: o que o estudo perguntou

O Panorama da IA no Brasil está na terceira edição. Nesta rodada, a Zappts ouviu 167 respondentes — executivos de tecnologia, inovação e negócio em posição de liderança, todos de grandes empresas — por formulário online, entre abril e julho de 2026. A margem de erro informada é de 7,6%, com 95% de confiança.

Vale grifar esse recorte antes de qualquer conclusão: são grandes empresas, e são 167 respostas. Não é um retrato da padaria da esquina nem da agência de marketing com oito pessoas. É o pessoal que tem orçamento, time de tecnologia e comitê para essas coisas.

O tema central da edição mudou de foco. Em 2024, a conversa era IA generativa — aquela que escreve texto e gera imagem. Agora é agente de IA: um software que não só responde, mas executa uma sequência de passos sozinho, acessando vários sistemas para terminar uma tarefa.

E é justamente aí que a pergunta do retorno fica mais espinhosa. Um assistente que redige e-mail você mede pelo tempo economizado. Um agente que abre chamado, consulta o estoque e responde o cliente atravessa três áreas — e o ganho fica espalhado por todas elas.

O número que eu li duas vezes: 55,1% contra 30,6%

Gráfico de barras comparando a fatia de empresas sem mapeamento estruturado de ROI em IA: 30,6% em 2025 e 55,1% em 2026
Gráfico do Nav Analytics com os dados do Panorama da IA no Brasil 2026, da Zappts.

55,1% das empresas ouvidas não têm mapeamento estruturado de ROI em IA. No levantamento anterior, esse grupo era de 30,6%. Quase dobrou em uma edição, como mostrou a reportagem do Mobile Time sobre o estudo.

Do outro lado da mesma pergunta: apenas 19,8% afirmam medir o retorno com clareza e de forma recorrente. As duas palavras finais fazem trabalho pesado ali. Medir uma vez, para justificar o projeto, é diferente de medir todo mês.

Minha primeira reação foi achar que as empresas ficaram piores em medir. Depois eu parei para pensar e achei mais provável o inverso: elas ficaram mais honestas na resposta, ou o alvo simplesmente cresceu.

Faz sentido? Quando a IA vivia num piloto isolado, dava para cercar o resultado — este time, esta tarefa, este mês. Quando ela se espalha por atendimento, engenharia e retaguarda ao mesmo tempo, dizer o que exatamente mudou por causa dela vira um problema de contabilidade, não de tecnologia.

O estudo não responde qual das duas explicações vale. Eu também não sei. Mas registro que o dado sozinho não distingue "piorou a medição" de "ficou mais difícil medir", e essas duas frases pedem reações bem diferentes de quem toma a decisão.

O gargalo mudou de lugar e ninguém avisou

Gráfico de barras com os principais obstáculos à adoção de agentes de IA: segurança da informação e privacidade 13,7%, integração com sistemas legados 10,5% e escassez de talentos 3,2%
Gráfico do Nav Analytics com os dados do Panorama da IA no Brasil 2026, da Zappts.

Essa parte foi a que mais me surpreendeu. Perguntados sobre o principal obstáculo para colocar agentes de IA em operação, 13,7% apontaram segurança da informação e privacidade, e 10,5%, integração com sistemas legados — os sistemas antigos que a empresa carrega há anos e não pode desligar.

Falta de gente qualificada, que em edições anteriores passava de 60% das respostas, aparece agora com 3,2%. É uma queda que eu confesso ter conferido em mais de uma reportagem antes de acreditar.

Junte isso ao lado do dinheiro: 26,2% das empresas não têm orçamento definido para projetos de agentes de IA, e 19,5% ainda disputam espaço dentro do orçamento tradicional de TI, sem verba própria.

Aí o quadro fica coerente e um pouco incômodo. Se o projeto não tem verba própria, ele também não tem uma linha de resultado só dele. E o que não tem linha de resultado não tem como ser medido — não é má vontade, é que não existe onde anotar.

Tem ainda um dado de governança que a cobertura do TI Inside destaca: 41,9% não têm política de segurança e ética definida para o uso de IA. E 77,3% projetam algum ajuste na força de trabalho em até três anos — número que eu prefiro deixar como está, porque "ajuste" é uma palavra que esconde muita coisa e o estudo não abre o que ela significa em cada empresa.

O que ficou sem resposta, para mim: nenhuma das matérias que li explica como a pergunta do ROI foi formulada. "Mapeamento estruturado" é uma expressão elástica. Ter uma planilha com custo e horas economizadas conta? Ou só vale se estiver dentro do controle financeiro oficial? A diferença entre essas duas réguas muda bastante o tamanho dos 55,1% — e mudar a régua no meio do caminho é exatamente o que aconteceu com a contagem de quem trabalha por aplicativo.

O que muda para quem decide com número

O estudo é sobre grandes empresas, e eu não vou fingir que os percentuais valem para um negócio de doze pessoas. Mas o formato do problema atravessa o tamanho: quem não tem o indicador definido antes não consegue provar o resultado depois.

Pense numa empresa média que colocou um atendimento automático no WhatsApp em março. Em setembro alguém pergunta se valeu. Para responder, é preciso comparar o tempo de resposta antes e depois, quantos atendimentos foram resolvidos sem gente, se a venda subiu no mesmo período e quanto custou a assinatura da ferramenta.

Esses quatro números costumam morar em quatro lugares: a ferramenta de atendimento, o sistema de vendas, o extrato do cartão e a memória de alguém. Juntar isso dá meio dia de trabalho — e é por isso que quase nunca é feito duas vezes seguidas.

Foi o mesmo incômodo que eu encontrei ao escrever sobre a produção industrial de julho, o dado com cinco leituras diferentes, e sobre a diferença entre saber quanto entrou e saber de onde entrou. O número existe; o que falta é ele chegar pronto, com data, no mesmo lugar. Reunir fontes que não conversam para virar um indicador acompanhável é o problema em que a gente trabalha no Nav Analytics.

A pergunta que eu levaria dessa notícia não é "minha empresa precisa de IA?". É uma anterior: se eu ligar uma ferramenta nova hoje, eu sei qual número vou olhar em três meses para dizer se ela funcionou? Se a resposta demorar, o problema não vai ser a ferramenta — vai ser o mesmo de sempre, o de não ter o indicador à mão.

Fontes

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